Corrupção na Saúde do RJ

Imagens mostram investigados em local onde, segundo delação, se discutia o esquema de corrupção na Saúde do RJ

Ex-secretário Edmar Santos e seu braço-direito, Edson Torres, disseram que a propina era dividida entre eles, Witzel, Pastor Everaldo e o suposto operador Victor Hugo Cavalcante.

16/09/2020 por Redação Guilherme Boisson, Bruno Sponchiado e Pedro Figueiredo

Um escritório no Centro do Rio funcionava como diretório da corrupção da Saúde no estado. Ali, de acordo com duas pessoas que confessam participação nos esquemas, eram tratados assuntos como fraudes e distribuição de propina. O RJ2 obteve com exclusividade as imagens das câmeras que registraram pelo menos seis encontros.

Era lá que o ex-secretário estadual de Saúde Edmar Santos se reunia com o Pastor Everaldo e seu braço-direito, Edson Torres.

O ex-prefeito de Nova Iguaçu Nelson Bornier, pai do secretário de Esportes e Lazer do governo, Felipe Bornier, também frequentava as reuniões. Quem confirma é o próprio Edmar Santos, em sua delação, e Edson Torres, em depoimento que está na segunda denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra o governador afastado Wilson Witzel.

O escritório fica na Rua Rodrigo Silva, Centro do Rio. As câmeras de segurança, com centenas de horas de gravações, revelam os participantes de encontros marcados para, segundo os delatores, direcionar contratações, dividir a propina e planejar os próximos passos do esquema criminoso.

Em depoimento ao Ministério Público Federal, Edson Torres afirmou que a propina era sempre exigida em espécie e que todos os participantes da reunião recebiam vantagens indevidas. O percentual variava entre 3 e 7% e era dividido da seguinte forma:

Edson Torres: 15%
Victor Hugo Cavalcante: 15%.
Edmar Santos: 30%
Divididos entre Pastor Everaldo e Witzel: 40%
A versão é a mesma que foi apresentada na delação de Edmar Santos.

As 6 reuniões
Edson Torres afirmou que, entre março e dezembro de 2019, o grupo se reunia no escritório às terças e às quintas pela manhã. Às terças, 20h, o encontro tinha a presença de Edmar Santos, então secretário.

Por volta das 8h de 9 de julho de 2019, Edson Torres chegou ao prédio acompanhado de uma mulher. A TV Globo apurou que seria sua secretária pessoal. Quinze minutos depois, chega o presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo. Alguns minutos mais tarde, é a vez de Nelson Bornier, depois Victor Hugo Cavalcante, apontado como o operador financeiro do grupo.

Em uma escuta obtida com autorização da Justiça, Bornier aparece conversando com um operador financeiro do empresário Mario Peixoto sobre a revogação da desqualificação do Instituto Unir Saúde.

Imagens do dia 6 de agosto de 2019 mostram Edson Torres chegando mais uma vez acompanhado da secretária e de uma maleta. Dessa vez, tinha a companhia também do doleiro Victor Hugo Cavalcante. Menos de um minuto depois chega Edmar Santos e, em seguida, Pastor Everaldo, com uma pasta.

A cena se repete em 1º de outubro de 2019, mais uma terça-feira. Edson Torres chega mais uma vez ao prédio. Um minuto depois, aparece Edmar Santos, depois Victor Hugo e, então, Nelson Bornier. Dessa vez, Edmar fica pouco tempo e sai 10 minutos depois.

Victor Hugo seria o operador financeiro da quadrilha. Santos disse que ele fazia a contabilidade do grupo e que, pra isso tinha um sistema bancário paralelo. Nas reuniões, mostrava um extrato com entradas e saídas dos valores pagos aos demais integrantes da quadrilha.

Em 8 de outubro de 2019, mais uma reunião. As imagens mostram Edson Torres entrando no prédio com uma maleta. Só que, dessa vez, sai sem a mala menos de dois minutos depois. Mais tarde, Nelson Bornier aparece mais um vez. Ele até dá um "joinha" para o porteiro, já que é conhecido no prédio. Mais tarde é a vez de Edmar Santos chegar para a reunião.

Edmar afirmou em delação que Bornier estava com frequência na reunião, sempre defendendo os interesses da Unir Saúde. A organização social – ligada a Mário Peixoto - foi desqualificada oito dias depois do encontro, em 16 de outubro.

Segundo o ex-secretário, o grupo mudou de local para fazer as reuniões porque, entre outros motivos, Bornier teria feito inclusive dossiê de todas pessoas que frequentavam o endereço da Rodrigo Silva como forma de pressionar os integrantes do grupo.

O ano de 2020 se iniciou, mas, segundo os delatores, as reuniões para decidir os rumos da corrupção na Saúde continuaram acontecendo. Em 17 de janeiro, Edson Torres, Edmar Santos e Nelson Bornier recebem um novo convidado aparece para a reunião: Gabriell Neves.

Na época, ele ainda não era subsecretário executivo da Secretaria de Estado de Saúde. Foi nomeado para o cargo em 1 de fevereiro, duas semanas depois do encontro.

Segundo os depoimentos de Edson Torres e Edmar Santos, foi uma indicação do grupo para manter o esquema de corrupção na Saúde.

O último registro é de fevereiro, com todos mais uma vez presentes na reunião.

O que dizem os citados
O governador afastado Wilson Witzel considerou as acusações mentirosas, disse que o que possui é fruto do seu trabalho e compatível com a sua realidade financeira e que está tudo declarado no imposto de renda. Segundo witzel, todo o seu patrimônio se resume à casa no Grajaú e não há qualquer sinal exterior de riqueza.

A defesa do Pastor Everaldo vem afirmando que confia na Justiça e que sempre esteve à disposição das autoridades. O pastor reitera a confiança na sua libertação.

Nelson Bornier, afirmou que nunca esteve em reuniões que não fossem partidárias e nunca solicitou favores ou teve negócios com o governo.

Victor Hugo Cavalcante negou qualquer conduta criminosa.

Edmar Santos não quis comentar.

Não conseguimos contato com Gabriell Neves.


Fonte: g1.globo.com

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