Novo secretário de Polícia Civil

'Se pudesse, usava tanques, não blindados', diz o novo secretário de Polícia Civil do Rio

Allan Turnowski é o novo secretário da Polícia Civil

27/09/2020 por Redação Vera Araújo

De fevereiro de 2011, quando deixou o cargo de chefe de Polícia Civil, até a primeira quinzena de setembro, o delegado Allan Turnowski, de 50 anos, dizia sempre que não pretendia voltar ao comando da corporação. No entanto, há pouco mais de duas semanas, numa academia da Barra da Tijuca, veio o inusitado convite por parte do governador em exercício, Cláudio Castro, com quem Turnowski divide halteres. Até então, as conversas eram restritas a comentários sobre o desempenho do Flamengo. Aceito o convite, o tema dos bate-papos passou a ser um só: segurança pública. Segundo o novo secretário de Polícia Civil — cargo que foi recriado, no ano passado, na administração do governador afastado Wilson Witzel — houve uma mudança drástica nos últimos nove anos: os policiais perderam poder.

Em meio à polêmica decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a restrição ao uso de helicópteros em operações policiais apenas em casos excepcionais, Turnowski pergunta: “A violência no Rio não é um caso de exceção?”. Para o secretário, não há motivos para que as forças de segurança deixem de utilizar aeronaves. As barricadas instaladas nas entradas das comunidades e a presença de homens fortemente armados, por si só, na opinião dele, já se enquadrariam como razões previstas na ordem judicial. Se pudesse, diz ele, “usaria em vez de blindados, tanques”.

O que mudou na segurança pública nos últimos anos?

A partir de 2008,quando foram criadas as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a gente passou a entrar nos morros e sair de lá. A polícia desestabilizava as quadrilhas e não as deixava crescer. Retomamos o território e a confiança da população. Posso dizer que quase 100% dos moradores preferem que a polícia fique na comunidade. Eles não apoiam tanto hoje porque sabem que a gente vai sair. A retomada do Alemão me marcou, pois eu percebi a população feliz. A polícia recebeu aplausos. Hoje as coisas mudaram. Não há mais o empoderamento das polícias. Voltei com a corporação receosa, com medo de processos judicias. A gente tem que resgatar o ânimo. É claro, se houver excesso, que sejam punidos.

O que o senhor pretende fazer?

A sociedade precisa perceber que a polícia faz parte dela e está ali para protegê-la. Em 2009, quando estive em Israel, fui a um kibutz que fabricava blindados. Ao retratar as dificuldades nas favelas cariocas, uma especialista em segurança, CEO de lá, me disse que não iria me vender o blindado dela porque, diante das condições que relatei, nós precisávamos era de um tanque. No fim de 2010, na tomada do Alemão, utilizamos o quê? Tanques. Aqui, temos terrenos íngremes, barricadas nos acessos, que acabam obrigando os policiais a desembarcarem dos blindados. Eles viram alvos. Traficantes se protegem por trás de muros de concretos e seteiras.

Como a Polícia Civil pretende atuar com a restrição ao uso do helicóptero nas operações impostas pelos Supremo?

Você entende que três criminosos numa via pública, armados de fuzis, são uma exceção? A montagem de barricadas nas ruas, com a abordagem de homens armados, é uma exceção? Toques de recolher impostos por traficantes ou milicianos são uma exceção? Na verdade, a violência no Rio não é um caso de exceção? Quando a decisão do STF afirma que a polícia só pode trabalhar em situações de exceção, estamos totalmente respaldados. Isso não impede as ações da polícia. Já estamos alinhados com a decisão. O que faremos é buscar a parceria do Ministério Público estadual, trazer a Polícia Federal novamente para trabalhar em conjunto. Pedir equipamentos emprestados ao Exército. Se eu pudesse, não usava o blindado, mas tanques. Pois o colocaria no alto de uma comunidade e dali tomaria de cima para baixo. Não usaria só um helicóptero, mas dois ou três para acompanhar a operação para que esta única aeronave não fosse alvo de criminosos. Por que não houve nenhum tiro na tomada do Alemão? Porque a superioridade bélica da polícia era tamanha que não havia condições de os criminosos nos enfrentarem.

Haverá operações no horário escolar?

É óbvio que ninguém vai entrar em colégio. Espera-se que não haja nenhum efeito colateral (pessoas baleadas). Se tiver de deixar o bandido escapar, a fim de evitar um tiro de risco, a recomendação é deixar que fuja. É preciso ver que proibir o trabalho da polícia nessas áreas significa colocar a criança em risco, com absoluta certeza, porque o traficante coloca a boca de fumo na porta da escola.

Os números do Instituto de Segurança Pública (ISP) apresentaram redução em roubos de carros e de cargas. Como reduzir mais ainda estes índices?

A meta é sempre zerar, apesar de ser um sonho. As palavras de ordem serão integração e união. Não dá para a Polícia Civil combater a criminalidade sem se integrar com a Polícia Militar. É preciso entender que o objetivo dessa parceria é prestar um bom serviço à população. Não tem como a PM se sentir mal de levar uma ocorrência para a delegacia. É obrigação do delegado receber as forças de segurança e tratar com prioridade, pois os policiais militares têm que voltar rápido para rua, só assim é possíver fazer o policialmento e controlar a criminalidade. Se o delegado não tiver esse propósito, nem senta na cadeira de titular.

Em meados da década de 90, a integração da Polícia Civil com a Polícia Militar era tanta que havia PMs nas delegacias, os chamados “adidos”. É possível que essa prática seja retomada?

Quando entrei na polícia, em 1996, a Delegacia Antissequestro (DAS) trabalhava com os soldados, cabos e sargentos que trabalhavam nas áreas onde os sequestradores atuavam. Eles traziam informações privilegiadas. Hoje, temos uma boa intregração com a PM, com troca de dados. Os adidos não são necessários.

No passado, o senhor chegou a trabalhar com o sargento reformado da PM Ronnie Lessa, acusado de ser o assassino da vereadora Marielle Franco.

Nós tínhamos na Polícia Civil cerca de cem policiais militares, dentre eles o Ronnie Lessa. Eu era diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada e não trabalhava diretamente com esse grupo. Pode checar a lotação deles e verificar que nunca nenhum deles esteve vinculado diretamente a mim. Eles estavam na DAS e em outras especializadas, não eram subordinados a mim.

Qual é a estratégia para o combate a milícia?

A milícia se espalhou pela Baixada Fluminense, pela Costa Verde e pelo interior do estado. Quando saí em 2011, estava concentrada na Zona Oeste. Milícia tem que ser combatida com rolo compressor. A ideia é atacá-la no aspecto financeiro. Para isso, será necessário que toda a polícia participe: os departamentos de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro. A Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados tem que atuar contra exploração da TV a cabo clandestina. Também é preciso investigar os homicídios. Estamos nos aliando ao Ministério Público do Trabalho por conta das construções irregulares das milícias, principal fonte de lucro delas, para fiscalizar o trabalho irregular dos operários. O combate do tráfico também será pela lavagem de dinheiro. Não pode valer a pena ser traficante, ladrão de carga. Tem que tirar o dinheiro deles.

O senhor trocou o delegado que apurava os homicídios da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Isso não causa mais atrasos à elucidação do crime?

A velocidade na elucidação de assassinatos por parte do Delegacia de Homicídios da Capital é incompatível com a rapidez que se quer chegar ao resultado. Nisso se encaixa perfeitamente o Caso Marielle. Entraremos nessa investigação com rolo compressor, principalmente se tiver ligação com a milícia. Outras delegacias entrarão para ajudar. Trouxe um delegado que tem histórico de combate às milícias da Baixada Fluminense. Mandei que ele sentasse e lesse o inquérito todo sozinho (são mais de 30 volumes, além dos anexos). Ele vai revisar tudo até exaurir todas a linhas de investigação. Não vejo prejuízo à investigação, que pertence à instituição. Um novo olhar deve fazer toda a diferença para elucidar o crime da Marielle e Anderson.


Fonte: extra.globo.com

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